sábado, 10 de outubro de 2009

Embora improvável, talvez Deus realmente não exista!

Embora improvável, talvez Deus realmente não exista e todo o edifício teológico que construímos tenha sido um exercício para diminuir, inconscientemente, nossa angústia existencial.

Embora improvável, talvez Deus realmente não exista e a fé que tão fortemente nos abraçou e da qual ficamos enamorados não passe de uma grande e doce ilusão.

Embora improvável, talvez Deus realmente não exista e toda a beleza e ternura que sentimos, emanadas da gloriosa natureza que nos cerca, não passe de um sentimento poético que ocorre diante do inefável e do belo, fruto de nossa insignificância quando confrontados pelo mistério.

Embora improvável, talvez Deus realmente não exista e tudo o que experimentamos em momentos de oração e leitura das Escrituras, de meditação e silêncio, nada mais seja do que fruto de nossa necessidade de segurança e sentido ou de reações e estímulos cerebrais, pura e simplesmente.

Embora improvável, talvez Deus realmente não exista e também não existe o amor verdadeiro, gratuito, incondicional, destituído de todo desejo de reciprocidade e verdadeiramente altruísta.

Embora improvável, talvez Deus realmente não exista e nossa própria existência não passe de um pesadelo, fruto da diarréia inestética de um acaso cego e infeliz.

Embora improvável, talvez Deus realmente não exista...

O mundo será, realmente, muçulmano?

(Foto retirada em Belém - Israel, por ocasião de minha viagem em 2007 àquele país. Em primeiro plano, vista de fundos da Basílica da Natividade. Ao fundo uma mesquita localizada do outro lado da praça, em frente à Basílica). O fio que, acidentalmente, estava estendido e que causa um efeito de separação entre as duas torres, interpretei-o como a impossibilidade de conciliação entre as duas religiões, com todo o discurso de tolerância e convívio da atualidade, especialmente em ambientes cristãos ocidentais).


Tenho ouvído de muitos que o mundo será muçulmano daqui a algumas décadas. Documentários e textos sobre o tema se multiplicam na internet e em revistas evangélicas de informação. Pergunto-me, entretanto, se tais projeções não seriam fruto de uma visão missionária zelosa, mas que usa de certa retórica "terrorista" com o intuito de reacender a chama evangelizadora de nossas igrejas e, assim, arrecadar mais recursos nas campanhas de missões, ou mesmo de um equívoco na leitura dos sinais dos tempos. Digo isso, porque, creio, não estamos levando outros dados em consideração.

Por exemplo: é fato conhecido que em países tradicionalmente muçulmanos a secularização (indiferença para com os temas religiosos) está crescendo, assim como nos países historicamente cristãos. O desinteresse pela religião em algumas nações islâmicas já é tão evidente (especialmente entre os jovens) quanto ao que se percebe no Ocidente em relação ao cristianismo. Esse fato eu pude constatar in loco.

Um outro dado que talvez não tem sido levado em consideração é a crescente resistência, antipatia e até mesmo, hostilidade, contra as religiões.

Todos temos ouvido falar das campanhas antirreligiosas, promovidas por entidades de ateus militantes. Tais movimentos, que começaram na "Protestante" Inglaterra, já se propagam por outros países. Em consequência, ou juntamente com isso, aumenta o apelo e pressão contra os usos de símbolos religiosos em lugares públicos.

Diante deste quadro, creio que o grupo que mais crescerá nestas próximas décadas será o dos indiferentes e contra as religiões tradicionais, especialmente as monoteístas (Judaísmo, Cristianismo e Islamismo). Naturalmente, outro tipo de religiosidade ocupará o seu lugar, já que o homem é um ser religioso por natureza. Esta será difusa e muitas divindades poderão ser adoradas. Poderá ser, ainda, que um sistema político-religioso-humanista de âmbito mundial se instale e exija obediência plena aos seus propósitos ou que o supremo governador deste admirável mundo novo seja divinizado e adorado.

Para mim, portanto, este é o quadro que está se configurando para um futuro não muito distante de nós.

Quem viver... verá!


quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Fui à Universal e sofrí!

Apesar de seu slogan "Pare de sofrer", pressupondo que lá você pode encontrar alívio para todos os seus problemas, fui hoje (07.10) à uma Igreja Universal do Reino de Deus e saí de lá depressivo. Fui com alunos do seminário onde dou aulas e, perplexos, pudemos constatar alguns dos artifícios mais nefastos que esta empresa religiosa utiliza para arrecadar dinheiro do povo a fim de continuar crescendo e enriquecendo a seus líderes.

Sofrí com a imagem de Deus alí apresentada - um Deus encurralado, obrigado a satisfazer as necessidades dos que são fiéis e que "lançam a semente". Definitivamente, adoram à outra divindade, não a da Bíblia.

Sofrí com a figura do pastor - um homem que perdeu sua identidade para assumir a do chefe, pois falava, gesticulava, andava e pregava como o patrão, o Papa Macedo. Saído da produção em série, cujo padrão é o bispo, berrava palavras de exortação ao público e de intimidação à Deus.

Sofrí com o sermão - na verdade não houve sermão, mas sim um discurso de vendas, manipulador, misturado com uma leitura bíblica (do Antigo Testamento, para variar) neurolinguística da pior qualidade e confissão positiva, a fim de convencer o seu público a consumir a mercadoria que estava sendo oferecida.

Sofrí pelo povo - boa parte dele formada por gente ingênua e crédula que não sabe discernir a mão direita da esqueda e que, por falta de entendimento, "corre para a sua destruição" (cf. Os 4.14). Outros, porém, não tão ingênuos assim, buscam soluções mágicas para levá-los ao sucesso fácil e rápido. Estão dispostos a pagar, contanto que a bênção venha à galope. Estes tornam-se semelhantes àqueles que adoram (cf. Sl 115.8). Estão perdidos!

Sofrí por tanto sincretismo - era uma noite de campanha: a do copo e a da flor. O copo de água mineral aludia ao texto lido (Gn 26). Depois da consagração no domingo, a água deverá ser bebida ou aspergida sobre a casa, escritório ou sobre alguém querido. A flor, entregue à quem a desejasse, assim como o copo, deveria ser levada para casa para absorver todo o mal na família e trazida no próximo domingo para ser queimada sobre o altar. Senti-me na Idade Média!

Naturalmente, nada do que vi e escutei me surpreendeu. O fato de não ouvir uma só palavra, sequer, sobre Jesus (a não ser no encerramento da oração) e de constatar que eles ainda não descobriram a Nova Aliança, não me escandalizou.

Apesar do slogan "Jesus Cristo é o Senhor" (em letras douradas, claro!), Este está longe de ter vez no púlpito daquele negócio que me recuso a chamar de "Igreja".

Na verdade, esta instituição é uma empresa, gerida empresarialmente. Como tal, visa o lucro e o sucesso. A divindade lá adorada e invocada é o Mamon e nenhum outro mais reina naquele recinto.

Lamentavelmente, a Universal fez e continua fazendo escola em nosso país. Até mesmo comunidades dentro das chamadas igrejas históricas tem reproduzido seus hábitos e teologia. Seu grande sucesso seduz à muitos, infelizmente.

Até quando, Senhor?!

terça-feira, 6 de outubro de 2009

Evento é vento


Ao longo do tempo confundiu-se o dom pastoral com a função da gestão eclesiástica e muitos pastores acabam tendo de investir tempo nisso, pouco sobrando para o cuidado das vidas.

Há poucos dias um aluno comentou que sua igreja era movida a eventos e que falou com seu pastor que evento é como vento, vem e some. Isso me acendeu uma forte preocupação e acabou dando título a este artigo.

Ao longo destas mais de três décadas de ministério tenho percebido que muitas igrejas acabam mesmo sendo movidas por eventos. Aliás, até que não é difícil gerenciar (não seria pastorear) uma igreja assim, dou a dica para você: basta fazer uma reunião antes de findar o ano com todos os líderes da igreja, elaborar um calendário repleto de atividades semana após semana. A você caberá cobrar antecipadamente ao responsável que tome providências para que a atividade programada seja cumprida. Seja rigoroso. Tire fotos, faça relatórios, coloque tudo no site da igreja e mostre que o “circo” está em movimento. Se alguém ficar doente no meio do caminho é só falar que a pessoa tem de dar um jeito e se sacrificar para o “reino” pois o show não pode parar.

Um dado curioso é que, em geral, as denominações históricas no Brasil foram organizadas por missionários norte-americanos. Vamos lembrar que uma das ideologias impulsoras da cultura norte-americana é o pragmatismo, que focaliza a ação, a utilidade. Creio que temos aqui as raízes históricas que podem ter nos induzido a reduzir o Cristianismo a atividades eclesiásticas, de modo que ser cristão significa simples e meramente trabalhar na igreja. Isso pode ter passado para as outras denominações que surgiram ao longo da história da igreja no Brasil.

Nesse sentido o pastor da igreja passa a ser gerente de calendário em vez de pastorear, cuidar do rebanho. O afeto, tão caro ao espírito do pastoreio, é substituído pelo poder, pelo comando, de modo que quando o pastor está chegando perto de alguém logo se pode pensar “Lá vem sermão (sinônimo para bronca”)!

Será preciso recuperar o lado relacional, convivencial, terapêutico, piedoso e amigo do pastoreio. Infelizmente ao longo do tempo confundiu-se o dom pastoral com a função da gestão eclesiástica e muitos pastores acabam tendo de investir tempo nisso, pouco sobrando para o cuidado das vidas e não apenas da utilidade de cada ovelha para o trabalho eclesiástico.

Igreja é muito mais do que evento, é uma comunidade terapêutica, provedora de acolhimento, de comunhão, compartilhamento, de socorro, de serviço, de testemunho, de aprendizagem, de disciplina também. É um ambiente fértil para o desenvolvimento da vida em adoração e glorificação a Deus. O resto é vento.

Lourenço Stelio Rega
é teologo, educador e escritor.

Fonte: ECLESIA/http://pastorchicco.wordpress.com/2009/08/22/evento-e-vento/